Esse ainda não é bem o começo, mas situa-se perto dele. Pensando bem, o começo disso tudo teria sido dez anos antes (1998), quando eu e Ronald Augusto fizemos as músicas que seriam reunidas no Cd “Os humanos”. Pois dez anos depois, no mesmo mês de dezembro em que o trabalho havia sido finalizado, encontrei-me com Ronald em uma de suas oficinas de poesia para, ao final, apresentar-lhe Michelle Neves, uma nova cantora que se interessara por uma de nossas músicas, Engraçado. No final do encontro de poesia, ela então fez uma capela, interrompida uma ou outra vez (não estava habituada, presumi, a cantar sozinha). No final da apresentação, Ronald me olhou e sugeriu que poderíamos gravar uma nova versão para a música (a primeira, cantada pelo próprio Ronald, está no Cd acima mencionado). Em seguida, marcamos um encontro na casa de Rogério Gil, que tem um pequeno estúdio de gravação, para registrarmos o projeto em uma espécie de música-guia, com batera de japa. No dia, caiu um temporal infernal, um aguaceiro dos trópicos digno da hileia hilariante de Euclides da Cunha. “E a Michelle?”, perguntou-me Rogério quando o atraso ficou notório. Bem, disse-lhe que eu tinha passado o endereço para ela e o número do celular. O atraso explicava-se pela chuva. Era preciso aguardar, comer alguns biscoitinhos enquanto isso. Uma hora e meia depois veio, enfim, o telefonema. Era ela dizendo que estava defronte a um shopping que desconhecia, debaixo d’água, com um guarda-chuva colorido. Acompanhei Rogério em seu carro. Dadas as circunstâncias, considerei o feito uma verdadeira operação de salvamento. Foi o nosso dia de bombeiro. Ainda no carro, a caminho do “estúdio”, ela nos explicou o que acontecera. A chuva, como se pôde ver, foi apenas uma pequena parte disso tudo. Ela, de fato, estivera perto do endereço combinado, uma vez que encontrara a rua. “Mas o que te impediu de seguir até a casa do Rogério?”. O problema, como nos explicou, é que ela anotara o endereço em dois pedaços de papel e perdera a parte com o número da casa. Por isso, por algum tempo, teria sido vista, na esquina da rua em questão, perguntando para alguns transeuntes apressados se não sabiam de alguma casa na rua interminável onde teria um ensaio de música. Depois, dadas as negativas e a chuva que descia em torrentes, decidira ir até uma lan house e acessar seus e-mails onde encontrou o telefone meu e, assim, nos contatou. Ainda tremendo e enquanto tomava um chá que Rogério lhe preparou, dizia “Eu não podia faltar. Eu tinha prometido que viria!”. Nesse encontro saiu a guia para a nova versão de Engraçado, que, ao fim, não entrou no CD Unpop, mas está em nossos planos de gravação. Ouçam, abaixo, o protótipo alinhado em uma noite turbulenta em um bairro plano da cidade de Capotes, como a chamou Camus.
Como conclusão: não sei se as músicas que fizemos ou fazemos farão história, mas já nos renderam boas (no sentido moral) histórias de vida. E isso, no começo, meio e no fim da vida, é o que conta. Quanto a Michelle Neves, que até então não se chamava assim, compreendi que poderia confiar nela. Quem grava e produz nas circunstâncias em que nós gravamos e produzimos, está sujeito a toda sorte ou azar de intempéries. Por trás de uma pequena desorganização pessoal e de uma grande revolução das orbes celestes, havia uma têmpera capaz de resistir heroicamente a tantas mazelas, dificuldades de toda ordem, inclusive aquelas criadas dentro da equipe, uma ou outra em relação à qual eu mesmo me penitencio. Hingo Weber.
GChuva – imagem de Jô Vigiano

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