Kanarinho Kid nº 1 (ouça)

Quando terminamos as gravações de Unpop, ainda no período em que aguardávamos os CDs da fábrica, eu me reuni com Wayner Nunes para ordenarmos, sob a forma de guias, algumas músicas antigas e criar outras novas. O material reunido e criado oscilou entre variações que poderiam muito bem ainda fazer parte do repertório de Unpop e alguns registros mais populares que resultaram nas guias para as músicas Marcha Estradeira e Melô do Careca. Parecia bem isso: seria um Unpop II com uma participação especial de um intérprete masculino. No entanto, nesse período, tive um sonho que, até aqui, posso dizer que foi o sonho mais acabado de uma letra de música que jamais tive (Levo, em média, dois meses para finalizar uma letra e, em geral, a criação é um processo bastante consciente). Acordei com os sopros do refrão de uma música: “Hasta la vista, baby. Hasta la vista.” Levantei da cama e anotei o refrão em uma agenda junto à cabeceira. Ao iniciar a anotação, dei-me conta de que era mais do que um refrão. Havia, digamos, um momento existencial e dramático que servia de enredo para o refrão. E a lembrança de uma angústia que me tocava ainda. Anotei tudo que me veio à mente, sem pensar muito em sistematizar e ordenar, em versos, as palavras que me eram sopradas ainda pelo meu inconsciente. Na manhã seguinte, anotei o texto no computador. Vi que estava completo, consideravelmente metrificado. No mesmo dia, à tarde, tínhamos uma sessão de gravação no estúdio. Mostrei a letra para Wayner Nunes, que a leu, pegou o violão e me disse: “Puxa, Hingo, eu sempre quis fazer um bolero”. E fez. Não digo que é a música que sonhei, porque isso eu sequer seria capaz de avaliar, mas é a música que me tranquilizou e, por isso julguei, pelos caminhos obscuros que me guiaram a essa letra, que era essa mesma a música que devia ter sido feita.

Um nome, duas palavras para isso tudo (para o nosso segundo Cd que, como me disse depois Wayner Nunes, “nasceu pronto”): KANARINHO KID.

HASTA LA VISTA, BABY

Os espinhos das rosas
Ferem meus braços
Mas eu não vou chorar
Por essa rua toda arrumada
Por onde eu passo

Eu fui hoje na loja
Da tua irmã mais velha
E disse pra ela
Que era boa pessoa
Ao contrário de você

hasta la vista, baby
hasta la vista.
hasta la vista, baby
hasta la vista.

Eu disse como revelação
Que sei onde agora
Você está toda desarrumada
Sobre um colchão

Eu estou indo embora
Não quero transformar
Essa rua limpa de classe média
Em um cenário de tragédia

hasta la vista, baby
hasta la vista.
hasta la vista, baby
hasta la vista.

Sozinho pela rua
Não sei pra onde eu vou
Só sei que não é pra onde
Você deve estar ainda nua

Hasta la vista, baby
Se eu ficar aqui eu sei que
Não vou suportar o cheiro
De banho tomado às pressas,
O perfume de tua traição

hasta la vista, baby
hasta la vista.
hasta la vista, baby
hasta la vista. BIS

 

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