Não quero falar do óbvio sobre as lágrimas de uma mulher que, presumo, não seja uma exceção. No entanto, durante todo o tempo em que construímos as músicas do CD Unpop, nossa vida comum se restringiu a uma secura dessa região do olho. Trabalhamos com objetividade e com alegria, vibrando a cada conquista e a cada bom resultado, a cada take de voz que era motivo de satisfação. Um pouco mais de um ano após termos iniciadas as gravações conjuntas, estávamos os três, eu, Wayner Nunes e Michelle Neves fazendo a masterização final das músicas no Studio Brothers. Passávamos uma a uma, avaliando cada elemento e seguindo adiante quando tínhamos o consentimento de todos. Tivesse algum reparo, algum volume, alguma coisinha qualquer a ser corrigida, aquele era o momento. Depois, teríamos que ser honestos e dizer que aquilo que fora publicado era o nosso melhor dos mundos possíveis, sobretudo do ponto de vista dos nossos esforços em termos do melhor de cada um de nós. Quando demos o nosso ok para a música Pietà, a sétima faixa, Michelle Neves desabou em choro e lágrimas. Nunca a tinha a visto assim. Wayner, quando a viu chorando (porque eu lhe havia dito que a nossa princesa estava em lágrimas), consolou-a, fraternalmente, tal como em outras ocasiões fizera para tranquilizá-la ou descontraí-la para que pudesse se concentrar nas gravações.
Eu, no entanto, logo comecei a ver uma beleza literária e trágica naquele acontecimento. Não pensei, talvez como algum leitor possa ter pensado, que as lágrimas de Michelle Neves teriam algo a ver com a própria música, embora até pudessem ter, mas então também seria na mesma medida para todos aqueles que se vissem representados no drama que a música descreve e desperta. Não, não era assim que eu via o acontecimento. Não. Shakespearianamente, via aquilo como um clímax, uma cena derradeira do quinto e último ato de uma peça que eu, Wayner Nunes, os Músicos, os Compositores, os Assessores para o inglês e o italiano, tendo Michelle Neves como protagonista inequívoca, o fio da meada de tudo e de todos nós, encenamos longe dos palcos e que ali se consubstanciava em um tipo de música. “Então era um adeus?”, alguém poderia perguntar. Pois que continue perguntando, como eu. Hingo Weber.
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