o take de Futebol

Quem grava com mulheres, com intérpretes femininas, sabe que o melhor take de voz não sai quando se quer, quando se programa, no dia e na bat-hora marcada. Vivenciamos essa verdade várias vezes com Michelle Neves no Studio Brothers a ponto de virar a nossa regra com exceções. Naquele que era pra ser apenas um ensaio de voz no final de uma sessão de gravação de trilhas, Michelle Neves encontrava o seu momento existencial (pela descontração, pela ausência de cobrança, por estar com a música introjetada por uma longa sessão de gravação de bateria e baixo que ela havia acompanhada cantarolando aqui e ali a música no recanto da sala) para alguns dos mais importantes “takes definitivos”. Foi assim com Invisible Presence, talvez o exemplo mais significativo dessa regra. O take de Futebol não seguiu, todavia, essa regra, não obstante eu atribuir a efetividade ou o bom resultado justamento ao fato de, a essa altura (estávamos em fevereiro de 2010), termos compreendido o processo de criação e exteriorização da arte de Michelle Neves.

O take de Futebol, como disse, saiu no dia e na hora marcada, tendo tudo, pelos acontecimentos, para não dar certo naquele dia. Para começar, Michelle Neves chegou bastante atrasada. E, para piorar, não queria entrar no estúdio. Disse que queria se desculpar por ter chegado atrasada. Respondi-lhe que não tinha problema, que apenas ensaiasse no tempo que restava, que Wayner Nunes estava lhe aguardando e que o microfone já estava instalado. Mas não era só isso: pediu o meu celular emprestado. Tinha que mandar uma mensagem para alguém, pois temia que a ordem do mundo estelar poderia sofrer um pequeno revés por causa de alguma desatenção sua em relação ao que deixara para trás. Ligou, mas em vão. Tentei minimizar o problema. Ela pareceu concordar. Depois voltou novamente a falar do atraso. Repeti que não tinha importância. Disse que me conhecia. Que não era bem assim. Prometi, então, não assistir à sessão de gravação. Ficaria, com o meu suposto aborrecimento, no corredor. E assim fomos conversando até que chegamos na terceira porta onde estava Wayner Nunes nos esperando. Dali em diante, os trabalhos foram conduzidos por ele, um mestre naquele pequeno espaço de tantas coisas. Minhas lembranças: Wayner ajustando o microfone e contando algo engraçado para Michelle Neves, que sorriu então e, rapidamente, foi descontraindo, esquecendo, ao longo de uma conversa que se estendia para além da tolerância de um produtor que se dissera tolerante, as mazelas do seu mundo exterior e assumindo, por recordação platônica, o posto em que é princesa de verdade. Wayner, finalizada a bem-sucedida gravação, me disse: “Eu não tinha nada pra lhe ensinar hoje”. hw.

P.s. O que narro aqui será melhor compreendido por aqueles que tiverem escutado Futebol. Nesse caso, ficará melhor delineado o desafio que tínhamos pela frente: fazer com que uma música essencialmente rítmica, com apenas dois acordes, ganhasse profundidade; que uma música sobre futebol, terreno predominantemente de intérpretes masculinos, fosse verossímil na voz de uma mulher e pudesse ambicionar um lugar ao sol ou à chuva dos corações dos irrequietos.

Related Posts with Thumbnails

This entry was posted in direção. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>