Os humanos (ouça)

Eu estava na casa da família de Ronald Augusto em um domingo do mês de abril de 98. Depois de um almoço vegetariano regado a um bom peixe no forno (uma das especialidades do anfitrião), enquanto conversávamos sobre poesia, Ronald achou uma folha solta, entre os seus livros, com um poema meu (“A chinesinha”: um manifesto amoroso, uma carta-provocação) dirigido, há alguns anos antes, a uma “mina” do Campus. E quase que prontamente, sob os meus olhos admirados, vi aquele meu texto fazer parte de algo maior, que o transcendia em força comunicativa e beleza. Dali em diante, em quatro ou cinco encontros de fim de semana, eu e Ronald fizemos o repertório das músicas que comporiam o CD “Os humanos”, que ainda seria lançado por nós no final daquele ano. Só voltei a entrar em estúdio dez anos depois, embora, nesse meio tempo, sobretudo no ano seguinte ao lançamento CD, eu tenha feito algumas novas letras e ensaiado a versão de “A chance” (que ainda se chamava “toda mulher”) para o inglês.

“Os humanos” foi arranjado e dirigido por Marcelo Nadruz, que também participou de alguns vocais. Abaixo, publico, para a curtição de nossos leitores e ouvintes, a música que originou o título do CD. “A chinesinha” não está aqui publicada, mas está em meus planos, o que já não posso dizer de minha musa inspiradora. Mas musas são pra isso mesmo. (Musas conquistadas são musas perdidas, até porque, por alguma razão, elas se tornam egoístas e, às vezes, inimigas da arte ou do artista que a conquistou.) Hingo Weber.

água amiga – ronald augusto

P.s. Em 2010, fiz uma versão da letra de “água amiga” para o inglês e depois para o italiano, o que deu origem depois a duas novas músicas: “the humans” (melodia composta por Michelle Neves) e “gli umani” (melodia composta por Ronald Augusto e Wayner Nunes). Ambas estão no CD “unpop definitive”.

“Água amiga” foi, pra mim, uma letra especial. Serviu, nos anos seguintes e nas futuras composições, como paradigma de letra, como parâmetro de como eu devia agir enquanto-compositor-no-mundo.

Eu me lembro do dia em que gravamos “água amiga”, da boa emoção de Ronald Augusto ao gravar o take de voz, e de como, ao sair do estúdio, me deu os parabéns quase como se fosse um batismo meu, e que Marcelo Nadruz, que gravara recentemente um CD instrumental de música new age, me pediu se podia publicar a parte instrumental de “água amiga” em um futuro CD. Enfim, havia um sentimento dentro da equipe de que aquele tinha sido mesmo um ponto alto, senão o maior daquela empreitada musical em um memorável 1998, que não existe mais, mas que, no exercício às vezes necessário de lembrança do que de bom e desafiante se fez na vida, não deve por mim ser esquecido.

 

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